Reportagem: Natasha Pinelli
Fotos: Comunicação Butantan
“Muito obrigado pela oportunidade, mas não vou conseguir.” Foi dessa maneira que o técnico de apoio à pesquisa científica e tecnológica do Laboratório de Coleções Zoológicas Valdir José Germano finalizou o seu primeiro dia de trabalho no Butantan. É que quando chegou ao Instituto, em 1988, ele tinha verdadeiro pavor de serpente, e a ideia de lidar diariamente com várias delas o abalou profundamente.
Passados mais de trinta anos, aquele início turbulento virou história para contar. Aos 61 anos, Valdir tem uma carreira amplamente reconhecida na herpetologia, além de ser inspiração para alunos e pesquisadores de todo o Brasil. A coroação da trajetória de sucesso veio em 2022, quando ele foi eternizado na ciência ao emprestar seu nome à espécie Bothrops germanoi – jararaca endêmica da Ilha da Moela, localizada no litoral de São Paulo.

Valdir ainda atuava como estoquista em uma empresa de tecidos na capital paulista quando decidiu prestar concurso público para trabalhar no Instituto Butantan, em 1986. A convocação veio dois anos depois, em um momento bastante propício: ele estava desempregado havia quase um ano, e fazia bicos para garantir o sustento da família – que acabara de aumentar com a chegada da primogênita Luana.
Nascida prematuramente, aos sete meses de gestação, a bebê foi acometida por uma grave infecção de varicela aos 3 meses de vida, permanecendo por quase 90 dias internada. A esposa de Valdir, Maria Darcy, precisou abandonar o emprego para dedicar-se aos cuidados com a pequena. “Foi um dos momentos mais difíceis que já passei na vida”, lembra o servidor público.
Empolgado com a porta que se abria, Valdir estava cheio de expectativas com o novo emprego no Instituto. “Assim que cheguei fui encaminhado ao RH, onde me perguntaram se eu gostava de bichos. Respondi que sim, claro! Fui inocente, porque apesar de estar no Butantan, não me ocorreu que eu trabalharia com serpentes”, conta.
Morador do município de Embu das Artes (SP), onde, no passado, os encontros com cobras eram frequentes, Valdir cresceu ouvindo o quanto o animal era perigoso, e desenvolveu verdadeiro pavor do bicho. Por ironia do destino, foi encaminhado justamente para o Laboratório de Herpetologia do Butantan. O setor abrangia o biotério de serpentes, que reunia mais de 200 espécimes utilizados na extração de veneno para fabricação de soros, além da celebrada Coleção Herpetológica – na época, uma das maiores e mais importantes do mundo.
No laboratório, o servidor foi recebido pela então diretora, Iara Laporta, que fez toda a apresentação do local. Enquanto caminhavam pelos corredores, Valdir não tirava os olhos das prateleiras, repletas de potes com serpentes dentro, e espiava pelas frestas das portas colaboradores manuseando serpentes. “Fiquei completamente apavorado, com o coração na boca.”
Quando Iara confirmou que, de fato, o trabalho envolveria contato direto com o animal, Valdir agradeceu pela oportunidade e disse que não aceitaria o posto. Mas a bióloga havia enxergado nele algo além de um homem assustado. Depois de muita insistência, conseguiu convencê-lo a voltar na semana seguinte.
Em casa, a família, que esperava Valdir com empolgação após o primeiro dia de trabalho, recebeu um balde de água fria: triste e frustrado, ele anunciou que não iria aceitar a vaga. Apesar da compreensão da esposa, sua mãe Natalina, hoje falecida, foi dura. “Ela me disse que eu tinha uma filha para cuidar e que iria, sim, assumir o posto. Na segunda seguinte, às cinco da manhã, ela já estava acordada para garantir que eu seguiria em frente.”
Em um primeiro momento, Iara e Valdir decidiram que ele ficaria responsável pela manutenção e higienização dos espaços do laboratório. Mesmo sem ter nenhum tipo de contato com as serpentes, o medo era seu companheiro diário. A situação tornou-se ainda mais complexa quando o servidor passou a ser alvo de discriminação devido à sua escolaridade – ele possui o Ensino Médio completo.
“Eu chegava em casa e chorava muito, que nem criança. No laboratório também, me dava um negócio, um pânico mesmo”, conta emocionado.
Se em casa era a mãe Natalina quem não deixava Valdir arrefecer, no Laboratório de Herpetologia também não faltaram mãos para ampará-lo. Além de Iara Laporta, o servidor guarda com carinho os conselhos de Selma Maria de Almeida e Otavio Marques, atualmente pesquisadores científicos do Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv); Francisco Luis Franco e Marcelo Duarte, pesquisadores científicos do Laboratório de Coleções Zoológicas; e Maria da Graça Salomão, atual coordenadora de Redação Médica de Ensaios Clínicos do Butantan. “Eles me consolavam, conversavam comigo e me davam inúmeras oportunidades.”
Com o passar do tempo e o apoio dos colegas, o dia a dia no laboratório foi se tornando mais leve. Depois de muito treino, Valdir superou o medo e passou a manejar serpentes com precisão e segurança únicas. “Um dos principais ensinamentos que recebi é que devemos levantar rapidamente o bicho com o gancho. Dessa forma, ele não percebe que está sem sustentação e tende a permanecer tranquilo”, afirma.
Por conta de sua destreza e organização, o servidor passou a contribuir com a complexa rotina de extração de veneno das serpentes do laboratório. Autodidata, sempre que tinha tempo disponível dedicava-se à leitura de artigos científicos – muitos deles em espanhol. “Buscava estudos sobre taxonomia e ecologia, principalmente. Passei a enxergar no meu dia a dia de trabalho aquilo que estava nos livros, e isso foi me dando confiança.”
A grande virada aconteceu quando Valdir teve a oportunidade de substituir um funcionário que havia faltado na Recepção de Animais. Atrelada à Coleção Herpetológica, até hoje a área é responsável por receber os espécimes peçonhentos encaminhados ao Butantan. No início da década de 1990, centenas de bichos chegavam diariamente ao setor.
A rápida capacidade de identificação de espécies e a habilidade de contenção apresentadas por Valdir despertaram a atenção do então técnico e “guardião” da Coleção, Joaquim Cavalheiro, que o convidou a fazer parte da equipe por tempo integral. Lá, o servidor passou a dividir-se entre as responsabilidades da Recepção de Animais e a organização do patrimônio herpetológico.
Ao longo dos 15 anos em que trabalharam lado a lado, Joaquim e Valdir reorganizaram três vezes todo o acervo da coleção. “O tempo e a dedicação foram tamanhos que quando alguém me pergunta sobre uma espécie, sei responder de cor as características do animal que temos disponível”, afirma.
O número de serpentes tombadas na Coleção Herpetológica do Butantan, que era de 50 mil no início da década de 1990, saltou para mais de 80 mil até 24 de maio de 2010 – data em que um incêndio de grandes proporções danificou mais de 80% do acervo. “Foi um dia muito triste. Infelizmente, um pouco da história do Butantan se perdeu ali. Mesmo aposentado, Joaquim veio até o Butantan e ficou observando tudo de longe”, recorda.
Falecido em 2020, Quim, como era carinhosamente conhecido, era visto como uma autoridade no manuseio e identificação de serpentes. Assim como Valdir, ele não possuía formação na área. “Tenho eterno respeito e gratidão ao senhor Joaquim Cavalheiro. Boa parte do conhecimento que carrego comigo veio dele”, completa o servidor.
Felizmente, os dias alegres de Valdir no Butantan superam – em muito – os tristes. Dentre os momentos inesquecíveis, ele destaca algumas das viagens que o levaram a destinos antes inimagináveis.
Na Ilha da Queimada Grande (SP), lar da famosa jararaca-ilhoa (Bothrops insularis) e paraíso dos herpetólogos devido à alta concentração de serpentes, o servidor viu tantos espécimes nos galhos das árvores que chegou a confundi-los com frutos. Quando estava a caminho da Ilha dos Alcatrazes (SP), onde vive a jararaca-de-alcatrazes (Bothrops alcatraz), navegou pelas águas mais belas e límpidas de sua vida. No Acre, realizou o sonho de ver em ambiente natural um exemplar de sua espécie preferida, a jararaca-cinzenta (Bothrops taeniatus) – o padrão de suas escamas lembra líquens nos troncos de árvores.
Das viagens, Valdir guarda também as muitas conversas com os moradores locais, que sempre trazem lendas e mitos sobre serpentes. “São histórias que fazem parte da cultura popular e que tentamos explicar com ciência”, diz.
Entre tantos episódios e contribuições científicas, existe uma que ficará para sempre na memória e no coração do servidor: quando seu nome foi eternizado ao batizar a jararaca endêmica da Ilha da Moela (SP), a Bothrops germanoi. Além de possuir coloração cinza e marrom, o exemplar analisado da nova espécie chamou atenção por ser bem pequeno, com cerca de 60 centímetros de comprimento, e ter a cabeça proporcionalmente menor do que as outras jararacas insulares do litoral paulista.
A homenagem foi feita pelos pesquisadores do Butantan Felipe Grazziotin, Francisco Luis Franco, Marcelo Duarte e Fausto Barbo, autores do estudo com a descrição da nova espécie, divulgado em janeiro de 2022. “Quando eles me mostraram o artigo, eu não acreditei. Só chorava e agradecia.” Um ano depois da publicação, Valdir teve a chance de viajar até a Ilha da Moela e ver na natureza a serpente que carrega o seu nome. “Conforme o barco foi se aproximando da ilha, senti uma sensação tão boa. Eu comecei a rir de tanta alegria.”
Quando não está pensando em suas milhares de serpentes, Valdir divide-se entre outras duas grandes paixões: o futebol e a família. São-paulino roxo, todos os domingos ele marca presença nos jogos de várzea do bairro. Atuando como zagueiro, ele jura acumular fãs.
Assim como no futebol, na torcida da vida suas principais apoiadoras são a esposa Maria Darcy, e as filhas Luana, Natália e Vitória. “São elas quem sempre estão do meu lado”, reforça. Para quem um dia sofreu por não ter cursado Ensino Superior, é uma enorme satisfação ver as meninas formadas e inseridas no mercado de trabalho – a mais velha e a do meio cursaram Administração, enquanto a caçula formou-se em Medicina Veterinária.
Apesar de sonhar com merecidos dias de sombra e água fresca em alguma praia do Nordeste brasileiro – de preferência em Natal ou Maceió –, o técnico do Laboratório de Coleções Zoológicas ainda não pensa em viver longe de suas adoradas serpentes. “Antes apavorantes, as cobras se tornaram sinônimo de vida, conhecimento e ocupação para mim. Tudo o que eu conquistei na minha trajetória foi por conta desse animal. Sou muito grato às serpentes e a todos os grandes amigos que fiz aqui no Butantan”, finaliza.



